Florbela Espanca
Olhos do meu Amor! Infantes loiros
Que trazem os meus presos, endoidados!
Neles deixei, um dia, os meus tesoiros:
Meus anéis. minhas rendas, meus brocados.
Neles ficaram meus palácios moiros,
Meus carros de combate, destroçados,
Os meus diamantes, todos os meus oiros
Que trouxe d’Além-Mundos ignorados!
Olhos do meu Amor! Fontes… cisternas..
Enigmáticas campas medievais…
Jardins de Espanha… catedrais eternas…
Berço vinde do céu à minha porta…
Ó meu leite de núpcias irreais!…
Meu sumptuoso túmulo de morta!...
Charneca em Flor.
Fonte: http://www.prahoje.com.br/florbela/?page_id=4
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
Alma Perdida
Florbela Espanca
Toda esta noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma da gente,
Tu és, talvez, alguém que se finou!
Tu és, talvez, um sonho que passou,
Que se fundiu na Dor, suavemente…
Talvez sejas a alma, a alma doente
D’alguém que quis amar e nunca amou!
Toda a noite choraste… e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!
Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh’alma
Que chorasse perdida em tua voz!…
Livro de Mágoas - Florbela Espanca.
Fonte: http://www.prahoje.com.br/florbela/
Toda esta noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma da gente,
Tu és, talvez, alguém que se finou!
Tu és, talvez, um sonho que passou,
Que se fundiu na Dor, suavemente…
Talvez sejas a alma, a alma doente
D’alguém que quis amar e nunca amou!
Toda a noite choraste… e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!
Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh’alma
Que chorasse perdida em tua voz!…
Livro de Mágoas - Florbela Espanca.
Fonte: http://www.prahoje.com.br/florbela/
Dezembro, mês de Florbela Espanca.

Florbela Espanca nasceu Flor Bela Lobo, a 8 de dezembro de 1894, filha de João Maria Espanca e Antónia da Conceição Lobo. Florbela entra para o curso primário em 1899, passando a assinar Flor d’Alma da Conceição Espanca.
Em 1903, aos sete anos, faz seu primeiro poema, A Vida e a Morte, já revelando, desde muito cedo, uma tendência a temas mais obscuros.
Casou-se três vezes e não teve filhos. Sofreu dois abortos involuntários. Depois do primeiro deles, em 1917, começa a apresentar os primeiros sinais de neurose e seu casamento se desfaz logo em seguida. O segundo casamento também não durou muito. Separa-se do marido após um aborto, o que faz com que sua família deixe de falar com ela.
Em 1927, seu irmão, Apeles, falece em um acidente, o que agrava consideravelmente a saúde de Florbela. A partir daí, ela nunca mais será a mesma.
Em 1930, tenta o suicídio e é diagnosticado um edema pulmonar. No dia 8 de dezembro do mesmo ano (em seu aniversário de 26 anos) , suicida-se ingerindo dois frascos de Veronal.
Obras
Livro de Mágoas.
Lisboa, Tipografia Maurício, 1919.
Livro de Sóror Saudade.
Lisboa, Tipografia A Americana, 1923.
Charneca em Flor.
Coimbra, Livraria Gonçalves, 1931.
Charneca em Flor.
(com 28 sonetos inéditos). Coimbra, Livraria Gonçalves, 1931.
Cartas de Florbela Espanca.
(a Dona Júlia Alves e a Guido Battelli). Coimbra, Livraria Gonçalves, 1931.
As Máscaras do Destino.
Porto, Editora Maranus, 1931.
Sonetos Completos.
(Livro de Mágoas, Livro de Sóror Saudade, Charneca em Flor, Reliquiae). Coimbra, Livraria Gonçalves, 1934.
Cartas de Florbela Espanca.
Lisboa, Edição dos Autores, s/d, prefácio de Azinhal Abelho e José Emídio Amaro(1949).
Diário do último ano.
Lisboa, Bertrand, 1981, prefácio de Natália Correia.
O Dominó Preto.
Lisboa, Bertrand, 1982, prefácio de Y. K. Centeno.
Obras Completas de Florbela Espanca.
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1985-1986, 08 vols., edição de Rui Guedes.
Trocando Olhares.
Lisboa, Imprensa Nacional/ Casa da Moeda, 1994; estudo introdutório, estabelecimento de textos e notas de Maria Lúcia Dal Farra.
Fonte: http://www.prahoje.com.br/florbela/?page_id=4
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Discurso
Cecília Meireles
E aqui estou, cantando.
Um poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixa seu ritmo por onde passa.
Venho de longe e vou para longe:
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho
e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes
andaram.
Também procurei no céu a indicação de uma trajetória,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel.
Pois aqui estou, cantando.
Se eu nem sei onde estou,
como posso esperar que algum ouvido me escute?
Ah! Se eu nem sei quem sou,
como posso esperar que venha alguém gostar de mim?
E aqui estou, cantando.
Um poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixa seu ritmo por onde passa.
Venho de longe e vou para longe:
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho
e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes
andaram.
Também procurei no céu a indicação de uma trajetória,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel.
Pois aqui estou, cantando.
Se eu nem sei onde estou,
como posso esperar que algum ouvido me escute?
Ah! Se eu nem sei quem sou,
como posso esperar que venha alguém gostar de mim?
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Retrato
Cecília Meireles
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
Motivo
Cecília Meireles
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo
mais nada.
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo
mais nada.
Novembro: mês de Cecília Meireles!

Peço desculpas aos leitores deste blog, pelo meu afastamento, mas estive muito ocupada no último mês com o meu trabalho (e daqui pra frente só piora, já que estamos no fim do ano!), motivo pelo qual somente agora estou "abrindo o mês" aqui no Brusca Poesia. E faço isso em grande estilo, já que a homenageada é Cecília Meireles.
Cecília Benevides de Carvalho Meireles nasceu em 7 de novembro de 1901, no Rio de Janeiro e faleceu em 1964, também no Rio de Janeiro. Foi a única sobrevivente dos quatros filhos do casal. O pai faleceu três meses antes do seu nascimento, e sua mãe quando ainda não tinha três anos. Criou-a, a partir de então, sua avó D. Jacinta Garcia Benevides. Foi poeta, professora, jornalista e cronista.
No período de 1919 a 1927, colaborou nas revistas Árvore Nova, Terra de Sol e Festa. Fundou a primeira biblioteca infantil do Brasil.
Lecionou na Univerdade do Distrito Federal em 1936 e na Universidade do Texas em 1940. Trabalhou no Departamento de Imprensa e Propaganda no governo de Getúlio Vargas, dirigindo a revista Travel in Brazil (1936).
É considerada por muitos como uma das maiores poetisas da Língua Portuguesa.
Em 1993 foi atribuído o Prémio Camões a Cecília Meireles.
"Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde, foi nessa área que os livros se abriram e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano."Cecíclia Meireles
Fonte: www.releituras.com.br / http://www.ecolenet.nl/tellme/poesia/cecilia.htm
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