Mostrando postagens com marcador identidade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador identidade. Mostrar todas as postagens

domingo, 3 de maio de 2009

Maio: mês de Mário de Sá-Carneiro e Manuel Alegre

mario-sa-carneiroman_alegre

Em maio, o blog presta homenagem, não a um, mas a dois poetas. Assim, resolvo a dificuldade da escolha e fico em paz com a consciência e com a poesia!

Pois bem. É hora de apresentar nossos homenageados e dizer o porquê desta escolha. Tentarei fazer isso intercalando informações ora sobre Mário de Sá-Carneiro, ora sobre Manuel Alegre. Este texto, porém, não pretende ser uma descrição pormenorizada da vida dos poetas (abaixo darei indicações de onde as encontrar), mas um comentário mais geral de alguns pontos selecionados em que, ora suas biografias se aproximam, ora se afastam. Mas antes, deixem-me explicar por que Sá-Carneiro e Manuel Alegre.

Conheci a obra de Mário de Sá-Carneiro através da cantora Adriana Calcanhotto. Parece estranho, mas foi exatamente assim: o cd Público, já citado aqui no blog, traz um poema do escritor musicado pela cantora brasileira. Talvez muitos aqui também conheçam a canção “O Outro”, que diz assim: “Eu não sou eu/ nem sou o Outro/Sou qualquer coisa de intermédio/pilar da fonte de tédio/que vai de mim para o outro”. Esses versos traduzem bem a tônica da poesia de Sá-Carneiro: uma busca angustiante por definir a si e ao seu mundo. Depois disso, instigada pela música, procurei e conheci outros poemas, além de ter lido também a novela A confissão de Lúcio, que, sem querer, encontrei na casa da minha avó, entre as coisas da prima Anabelle.

E por falar nela, foi também Anabelle quem me apresentou ao poeta e político português Manuel Alegre, através do livro Cão como Nós, aliás, leitura belíssima e muito prazerosa. Agora que expliquei brevemente os motivos da dupla homenagem, já posso continuar.

Dizia eu que, ao lermos a biografia de cada um, podemos identificar semelhanças e diferenças. Entre os fatores que os aproximam, podemos citar a nacionalidade portuguesa e a inseparabilidade da vida e da poesia. A respeito da última, Alegre, em um texto autobiográfico do site que leva o seu nome, escreve: “Escrita e vida são inseparáveis. Embora eu entenda a poesia como experiência mágica, algo que está aquém e além da literatura.” Se a escrita é inseparável da vida do poeta, a poesia de Mário de Sá-Carneiro é um ótimo exemplo desta ligação. Basta analisarmos seus poemas e logo somos levados a reconhecer ali a confusão mental e a angústia dilacerante que levariam o jovem poeta ao suicídio aos 26 anos de idade.

Temos na morte outra possibilidade de aproximação entre os dois poetas. Manuel Alegre, vivo e atuante no cenário político português atual, tendo sido candidato à Presidência em 2005, não esconde sua angústia da morte ao revelar: “Tenho desde pequeno a obsessão da morte. Não o medo, mas a consciência aguda e permanente, sentida e vivida com todo o meu ser, de que tudo é transitório e efémero e não há outra eternidade senão a do momento que passa”. Mas, se a consciência da morte se faz presente, não tem como efeito diminuir as forças do poeta e o seu desejo de viver. Ao contrário, Alegre deixa claro que nunca viveu postumamente e que não procurou se construir por meio da literatura, na qual nem sequer acredita. Mas, “na poesia, sim”.

Temos aqui uma comparação paradoxal, pois, se é verdade que a obsessão da morte aproxima a vida dos dois escritores, a forma como cada um viveu esta obsessão revela diferenças fundamentais: Sá-Carneiro resolve o sofrimento através do suicídio; Alegre, através da própria vida.

Há muitas informações interessantes sobre a vida de ambos os poetas, e recomendo que vocês não desprezem tal leitura. Meu texto teve a intenção de despertar a curiosidade e indicar-lhes o caminho. Assim, os links abaixo são dos sites que serviram de fonte de consulta para mim e que podem ajudar a esclarecer os pontos que não abordei aqui, a quem tiver interesse de conhecer um pouco melhor. Boa leitura e até a próxima!

Bia Loivos.

http://www.manuelalegre.com/index.php?area=1500

http://www.algumapoesia.com.br/poesia/poesianet070.htm

http://users.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/alegre.html

http://www.astormentas.com/carneiro.htm

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Por que se criam blogs?



Não sei exatamente o que leva a maioria das pessoas a criarem blogs, fotologs, my spaces e afins, mas tenho um palpite de que a razão tenha a ver com identidade. Pessoas estão, o tempo todo, desejosas de afirmarem sua identidade individual, até mesmo quando julgam estar afirmando uma identidade de grupo, seja por meio dos textos (próprios ou de autores favoritos) publicados em diários virtuais, seja através de fotos lançadas a cada minuto nos fotologs, ou das músicas baixadas nos my spaces. Deixemos de lado as questões sobre o quê e onde, pois não importam aqui, e nos concentremos no porquê. Em tempos em que as relações humanas se liquefazem tão facilmente, como assinala Bauman em obras como Amor Líquido e Modernidade Líquida, os seres humanos tendem a se isolar dentro do que acreditam ser o seu “eu” verdadeiro, a salvo das ameaças que as relações exteriores podem representar a sua individualidade. Importante salientar aqui que as identidades, para Bauman, longe de serem rígidas, são também elas líquidas, fluidas, dispostas a se moldarem o tempo todo às mudanças sociais, políticas, econômicas, pois “nenhuma união de corpos pode, por mais que se tente, escapar à moldura social e cortar todas as conexões com outras facetas da existência social” (Amor Líquido). Peço licença ao sociólogo polonês para estender essa afirmação – aplicada especificamente ao amor na comtemporaneidade – à formação da identidade, pois entendo que ela (identidade) seja produto do encontro social entre as pessoas, dentro de uma cultura, num tempo histórico.

Ao mesmo tempo, no que pode parecer – e é – um movimento paradoxal, as pessoas lançam-se em relacionamentos novos com uma freqüência cada vez maior, cuja marca principal é a transitoriedade. Não estou falando aqui apenas de relacionamentos amorosos, embora também deles, mas de todo tipo de relações humanas – as de amizade, as de trabalho e até mesmo as de parentesco. É difícil fugirmos da vontade de auto-afirmação e do apelo individualizante da pós-modernidade. Estamos cotidianamente caindo na armadilha do individualismo, da busca por um sucesso profissional que se define pelo retorno meramente financeiro, traduzido em acumulação de dinheiro para sustentar nosso consumismo. Somos levados a acreditar que nossa felicidade e realização como pessoas se devam menos a nossa capacidade de nos relacionarmos com os outros, do que às contingências exteriores a nós – um bom emprego, um salário digno – de modo que fugimos à responsabilidade e a depositamos na conta do mundo perverso e cruel lá fora – a metáfora foi, sim, uma alfinetada no capitalismo e nas regras que ele impõe às relações humanas, à semelhança das relações de consumo – mais uma vez é Bauman quem nos confronta com essa verdade.

Mas por que um texto intitulado “Por que se criam blogs?” está discutindo o mundo capitalista, depois de começar falando em identidade? Para quem pensa que, espertamente, pegou essa pobre escritora em contradição, ou ao menos desprevenida, se engana, pois não estou aqui falando de terceiros, e me excluindo dessa soma, mas ao contrário, falo em primeiro lugar de mim mesma e dos meus blogs – dois em atividade, um parado, mas ainda vivendo no espaço virtual e dois multiply, sem mencionar os perfis do MSN e o do Orkut... Quantas ferramentas pra dar conta de uma pessoa só! Mas uma pessoa inquieta, inconstante, em busca de definição, atrás do sentido das palavras e das coisas e, acima de tudo, do sentido da própria existência. O que são todas essas coisas senão o retrato de uma pessoa numa busca incessante por definir-se e definir o seu mundo, frente às ameaças de dissolução que as relações líquidas parecem significar? Talvez porque o vislumbre da condição de mais um na multidão de corpos controlados seja demasiado incômodo para nossa pobre consciência, presa a uma idéia de individualidade que já não cumpre mais o papel de proporcionar conforto. Talvez porque não queiramos reconhecer o fato de que somos nós que construímos a sociedade em que vivemos, e somos nós, não os deuses, os responsáveis pelas mazelas que se nos abatem. Talvez eu esteja divagando demais nessa madrugada quente e abafada...

Já reconhecemos que a criação de blogs – os quaisquer manifestações dessa natureza – ainda que se definam de outras mil maneiras, guardam uma característica em comum entre si, a saber: todas representam, em maior ou menor grau, algum tipo de esforço para afirmar a identidade de alguém ou de um grupo. Não nos furtamos a reconhecer também, que, não sendo diferentes dos demais, também estamos aqui pra afirmarmos a nossa diferença individual, nossa identidade como sujeitos. Falta falar uma última coisa, para encerrar esse texto – mas não os pensamentos que lhe deram origem! O que falta deixar claro é que não se trata de afirmar juízos de valores quando dissemos, com Bauman, que as identidades e as relações, no tempo que estamos vivendo, são líquidas – isto é: fluidas, escorrem o tempo todo, escapam de definições enclausurantes, e estão, o tempo todo, se moldando às exigências da realidade que nos circunda. Isso não é bom nem mau. Não é melhor nem pior do que o que tínhamos antes – relações mais duradouras entre sujeitos com identidades monolíticas e sólidas. Trata-se, unicamente, de que é o estado das coisas.

Há muito ainda o que dizer. O assunto não se esgota aqui, nem se esgotará nas postagens subseqüentes. Muito do que li nos últimos tempos, bem como dos filmes que tenho assistido, convergiu para que este texto fosse escrito. Nos próximos posts, falarei um pouco mais sobre essas influências.


Bia Loivos.



Para compor esse texto, recorri ao site Digestivo Cultural - resenha do livro Amor Líquido, de Zygmunt Bauman.
http://www.digestivocultural.com/ensaios/ensaio.asp?codigo=123

Aos que queiram se aprofundar, indico este link, que contém uma entrevista com Bauman.
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-20702004000100015&script=sci_arttext

Outros textos sobre o pensamento do sociólogo polonês também podem ser encontrados no mesmo endereço.